
mind walks here
quinta-feira, janeiro 06, 2005
Minhas Ferias: Redacao de Volta as Aulas
Dor nas costas, nos bracos, bolhas no pe e a decepcao de ter esquecido que eu nao tinha arrumado o quarto antes de viajar nem mesmo deixado alguma comida. Agora que eu voltei para ca, aqui passou oficialmente a ser a minha casa. Estranho como esse e outros tantos conceitos que a gente tem como super solidos sao relativos e fluidos. Foi a sensacao de voltar para casa que transformou meu quartinho ingles em casa. A raiva mortal de nao ter feito nenhum dos dois trabalhos na viagem, por que e que eu nao consigo ter um minimo de forca de vontade? O livro de 500 paginas e capa dura que eu carreguei de um lugar para o outro serviu para materializar a minha culpa e entortar toda a minha coluna, mas foi so. Bah, convenhamos, eu nao estou aqui para estudar, nao e mesmo? E a irritacao de crianca que passou do horario era mais a tristeza de ferias terminando. Ah, a Franca… Que delicia nao ser a turista tipica e poder falar com as pessoas, entender a televisao, ler as noticias do jornal e os outdoors na rua. A Franca fica logo virando a esquina, mas demorei interminaveis 12 horas para chegar la. Onibus ate a rodoviaria de Nottingham, onibus ate Londres e depois para o aeroporto de Stansted. O mundo todo estava viajando. Com uma raise fieber yeke herdada muito a contragosto do meu pai, estava impaciente esperando a guardinha me revistar. Fui ainda surpreendida por um “Wie geht es” por ter em uma das maos meu precioso Raise pass. E para explicar que eu nao sou alema? Sorrisinho amarelo de posso ir embora, moca? E cheguei no gate a tempo da ultima chamada. Com um ouvido surdo e o outro zunindo esperei minha malinha no fantastico aeroporto de Montpellier, fingindo que eu nem estava decepcionada que mais uma vez nao tinha ninguem me esperando. Ah, eu sou uma menina cosmopolita, viajo para todos os cantos e bah, nao estou nem ai de ter que me virar sozinha. Rarra… Tudo isso durou pouco, porque logo me encontrei num dilema Tostines super mega genial. Eu so poderia trocar dinheiro na cidade e so chegava na cidade pagando o onibus. Nem Neti nenhuma poderia botar defeito no meu plano de trocar dinheiro no aeroporto. Onde mais e que eu iria arranjar euros? Esses malditos ingleses orgulhosos e que poderiam comecar a ser mais como o resto do mundo, for a change. Antes de sentar e chorar, tentei fazer cara de desconsolada para o motorista, mas nao adiantou. Consegui apenas a raiva de uma vovo que tambem aguardava o onibus. Voces jovens nao entendem nada. Usam a internet e nem sabem que precisam de dinheiro, voce nao tem o cartao azul? Argh, como nao, tem que ter e tal. Esses ingleses, vou dizer… Voce e inglesa? Ah, brasileira? Ah, querida, nao se preocupe, eu pago a sua passagem. Derretidamente agradecida subi no onibus e passei os 30 minutos da viagem conhecendo a arvore genealogica da minha santa protetora. Ela me pediu apenas um favor, que retribuisse a gentileza lhe mandando um cartao postal. O nome dela? Virtude. Se fosse um filme iam dizer que o diretor tinha forcado a barra. Dona Virtude que pagou a minha passagem.Encontrei a Mel na estacao, paguei a Dona Virtude e rumamos para a periferia da cidade. Passei 10 dias muito gostosos, acordando ao meio dia, me empanturrando de Nutella, Brie e Camembert, conhecendo lindas cidadezinhas medievais e celebrando meu reencontro com o sol. Conheci o Mar Mediterraneo, o canal do Midi e tantas outras coisas. Vi televisao e andei de carro, duas coisas raras nos quatro meses de viagem recem completados. De noite eu me sentia num filme do Scola, ouvindo o tio da Mel contar suas historias, explicar suas opinioes. Comemoramos um natal meio atipico e desencanado com uma saudade apertada de casa e uma angustia ao olhar para o telefone. Que bom ouvir as vozes de casa! Nao, Na, eu nao vou chorar...Ir para Avignon era tambem um pulinho de trem. Quando a gente pega o trem certo. As vezes, a gente tem o azar de cair num trem sem paradas ate Paris, a apenas 600km de onde queriamos chegar. Desesperos a parte, fui muitissimo bem acolhida pelo mocinho do trem, que deve ter achando que eu entrava numa locomotiva pela primeira vez na vida e me deu todo o apoio necessario. Linda a Gare de Lyon de Paris, passei 30 minutos la e estiquei para 7h30 uma viagem que deveria ter me tomado 1h. Que vergonha fazer o Simon me buscar quase meia noite. Mas passou. Foram mais 6 dias de sol, com os passeios mais diversos. Avignon, Marseille, Mont Ventoux. Conheci a cidade que hospedou Van Gogh em seus ultimos anos e conheci mais queijos e mais vinhos. Adorei Ratatouille, omelete com trufas e pastis. Como e provinciana, a Franca! As lojas fecham das 13h30 ate as 15h30 e vai la explicar para a sua colica que ela esta adiantada… Nada de dor ate as 16h, chuchu… E para explicar colica para a farmaceutica? Colique? Nao.. Bom, tudo se ajeita. Passamos um reveillon friorento em Avignon e fomos barrados no baile por nao estarmos vestidos adequadamente. Partimos entao, Simon, 2 amigos e eu para uma balada na roca. Taca vodka com suco de maca que ntudo fica lindo. Celebramos a meia noite da Franca, da Inglaterra e do Brasil e no meio de alguma meia-noite, eu aprendi a ficar em francês, palavrinhas que professor nenhum ensina na Aliança Francesa.... Neste ponto o Simon ja estava desmaiado no carro e percurso de 5km demorou uns 40 minutos, por causa das pauses para, hum, que ele tomasse ar…Ressaca generalizada chez Simon dia 1. Ninguem se mexeu. Dia 2 de madrugada rumei, desta vez intencionalmente para Paris. Que delicia Paris! Fui conhecer o Jardin du Luxembourg, Jardin des Tuileries, Place de la Concorde e depois me enfiei num café para ver se eu progredia um minimo nos trabalhos escolares. As 21h eu olhava impaciente para todos os lados da estacao Pont de Neuilly ate achar a Beta e ficar doida. A cabeca tava rodando… Beta, Lu, Paris, ah! Foi tao legal quanto foi inacreditavel. Ficar numa casa com tantos quartos que eu quase precisava de mapa. Tentar apenas repor o sono perdido, porque a presenca de uma melhor amiga no quarto ao lado nao e uma coisa de se dispensar. E la se foram madrugadas de atualizacao das nossas vidas, de poder estar perto, trocar confidencias, igualzinho a 10 anos atras. Andamos por Paris como se fizessemos uma cruzada. E comemos paninis diversos, experimentamos refrigerantes estranhos, rimos das cadeiras coloridas das estacoes de metro, da explicacao dos riscos de aviao no ceu, dos enologos que estudam Deus. Rimos de tudo que cruzou nosso caminho. Rimos toda a vez que o Luciano lembrava que suas luvas eram Thinsulate 40 gramas, seja la o que for isso, ou toda vez que a Beta demorava meia hora para fechar o ziper do casaco dela. E quase chorei na hora de ir embora. So nao chorei por falta de tempo. Livros, roupas, meu discman e 2 esmaltes novos nas costas, cheguei em um novo aeroporto, aterrisei em Nottingham e fingi de novo que nao estava nem ai que nao tinha ninguem fazendo festa com a minha chegada. Ai o telephone tocou, era a Kanchan, histerica pelo meu retorno, perguntando se eu ja tinha voltado para casa. E, eu respondi, sim, acabei de chegar em casa. E tudo de repente fez tanto sentido…
.: posted by Miss Mindwalk 13:10
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